NR-1 entra em contagem regressiva e exige das empresas nova abordagem sobre saúde mental

 Com inclusão dos riscos psicossociais, especialista indica por onde começar e alerta para risco de adaptação superficial

 

A atualização da NR-1, que passa a incluir os riscos psicossociais na gestão de riscos ocupacionais, tem colocado as empresas brasileiras diante de um novo desafio: estruturar a forma como lidam com a saúde mental no ambiente de trabalho.

 

Com o prazo de adequação se aproximando, cresce a pressão para transformar iniciativas pontuais em uma abordagem mais consistente. Embora muitas organizações já tenham avançado em ações de bem-estar, a exigência agora envolve identificar, acompanhar e gerenciar fatores como estresse, sobrecarga, pressão e conflitos de forma integrada à gestão de riscos. “Existe um avanço na conscientização, mas ainda com pouca estrutura. Muitas empresas já fazem alguma coisa, mas não necessariamente conseguem sustentar isso como gestão”, afirma Gustavo Drago, especialista em Saúde Corporativa e CEOda Becare.

 

Na prática, especialista aponta que a principal dificuldade está em transformar um tema tão subjetivo em algo gerenciável. Neste contexto, o momento pede foco no essencial, especialmente para empresas que ainda estão nos estágios iniciais de adaptação.



 

Contagem regressiva NR-1: por onde começar

 

1. Reconhecer os riscos psicossociais como parte da operação

 

O primeiro passo é deixar de tratar saúde mental como tema periférico. Fatores como pressão excessiva, jornadas desbalanceadas e falhas de comunicação fazem parte da dinâmica de trabalho e precisam ser consideradas dentro da gestão.“Enquanto esses elementos forem vistos como algo subjetivo ou secundário, a empresa não consegue avançar de forma consistente”, explica Gustavo.

 

2. Mapear, ainda que de forma inicial, onde estão os principais pontos de atenção

 

 

Não é necessário começar com modelos complexos, mas é fundamental ter alguma leitura sobre onde estão os maiores níveis de pressão seja por área, função ou dinâmica de trabalho. O risco de não mapear é agir por percepção. E percepção, sozinha, não sustenta decisão.

 

3. Conectar o tema à gestão de riscos já existente

 

A NR-1 não cria um processo paralelo. A exigência é que os riscos psicossociais façam parte da lógica já adotada pelas empresas na gestão de riscos ocupacionais e quando o tema fica isolado, ele perde força e não atende ao que a Norma propõe.

 

4. Evitar respostas genéricas ou padronizadas

 

Ações amplas e pouco direcionadas tendem a ter baixo impacto. Cada organização possui dinâmicas próprias e a efetividade das iniciativas depende dessa leitura. Segundo o especialista, não existe solução universal. O que funciona em uma empresa pode não fazer sentido em outra.

 

 

5. Garantir continuidade, e não apenas ação pontual

 

Um dos principais pontos da Norma é a necessidade de acompanhamento ao longo do tempo. Iniciativas isoladas podem até gerar alívio momentâneo, mas não configuram gestão. “A diferença entre ação e gestão está na continuidade. Sem isso, não há evolução real”, afirma Gustavo.

 

 

A forma de adaptação à NR-1 varia conforme o porte das empresas. Pequenas organizações tendem a enfrentar limitações de estrutura e formalização. Empresas de médio porte lidam com o impacto do crescimento e a falta de processos consolidados. Já as grandes enfrentam desafios de integração e padronização entre diferentes áreas.Apesar das diferenças, o ponto em comum é a dificuldade de estruturar o tema de forma consistente.

 

E a não-adequação à NR-1 pode gerar autuações e passivos trabalhistas, no entanto, oespecialista destaca que o principal impacto costuma ser operacional. Ambientes com altos níveis de estresse e baixa segurança psicológica tendem a apresentar queda de produtividade, aumento de absenteísmo e maior rotatividade.Muitas empresas olham primeiro para a penalidade, mas o impacto no dia a dia costuma ser mais imediato e mais relevante”, explica Gustavo.

 

Com o prazo se aproximando, cresce a tendência de decisões aceleradas. Para especialista, esse é um dos principais pontos de atenção.

“Quando a empresa tenta resolver rápido, corre o risco de criar algo que não se sustenta. A NR-1 exige mais do que um registro — exige capacidade de acompanhar e agir”, alerta. “A Norma traz uma mudança importante: ela exige que a saúde mental seja tratada com o mesmo nível de seriedade que outros riscos ocupacionais”, conclui Drago.

 

 

Sobre Gustavo Drago

Gustavo Drago é fundador e CEO da Becare, plataforma de saúde corporativa que impacta mais de 500 mil colaboradores em grandes empresas multinacionais. Atuou por mais de dez anos como pesquisador na USP integrando ciência, dados e comportamento humano em projetos de alta complexidade.

É, também, fundador da CoCriacorporate venture builder focada em modelos de negócio e inovação para o ecossistema de saúde, desenvolvendo tecnologias e soluções escaláveis em diferentes segmentos, incluindo saúde corporativa, medicina reprodutiva, traumatologia e linhas de cuidado especializadas.

Possui MBA em Gestão de Negócios pela FGV eformação pela UNIFESP em Ciência do Movimento Humano Aplicada à Saúde. Atua como professor convidado em cursos da USP, é autor de capítulos de diversos livros e possui publicações em periódicos internacionais. 

Hoje, Gustavo é referência nas áreas de saúde corporativa, inovação e tecnologia aplicada ao bem-estar e à gestão de riscos psicossociais.

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