“Quando a mente distorce, o corpo paga o preço”


“A endocrinologista Carolina Mantelli explica por que a distorção da imagem corporal vai além da estética e impacta diretamente o metabolismo e a saúde hormonal”


A forma como uma pessoa se enxerga no espelho nem sempre corresponde à realidade — e essa desconexão pode ter impactos muito mais profundos do que se imagina. Para a endocrinologista e metabologista Carolina Mantelli, a distorção da imagem corporal não é uma questão de vaidade, mas um sinal claro de que há um desequilíbrio entre mente e corpo. “Quando a percepção está alterada, o organismo inteiro responde. Não é só psicológico — é fisiológico também”, afirma.


Segundo a especialista, esse tipo de distorção pode fazer com que mulheres se sintam acima do peso mesmo estando dentro de parâmetros saudáveis, ou entrem em um ciclo de autocrítica constante, nunca se percebendo como “suficientes”. Esse padrão mental, aparentemente silencioso, ativa mecanismos de estresse no organismo, com aumento de cortisol e impacto direto no metabolismo. “O corpo entende esse estado como ameaça. E, a partir disso, passa a funcionar em modo de defesa, dificultando emagrecimento, favorecendo inflamação e alterando o equilíbrio hormonal”, explica.


A relação entre mente e corpo, nesse contexto, é indissociável. Não se trata apenas do que a balança mostra, mas da interpretação que o cérebro faz dessa informação. “Duas pessoas com o mesmo peso podem ter percepções completamente diferentes sobre si mesmas — e isso muda totalmente a resposta metabólica de cada uma”, pontua a médica. Essa distorção pode levar a comportamentos extremos, como restrições alimentares desnecessárias, compulsões ou uma relação disfuncional com o próprio corpo.



Dra. Carolina reforça que cuidar da saúde vai muito além de números. Envolve autopercepção, equilíbrio emocional e reconhecimento dos próprios limites. “Não é falta de força de vontade. É um sistema em desarmonia, que precisa de cuidado e abordagem adequada”, destaca. Por isso, o tratamento não pode ser isolado ou superficial — ele precisa integrar aspectos hormonais, metabólicos e emocionais.


Na prática clínica, isso significa olhar para o paciente de forma completa. Ajustar hormônios, investigar inflamações, regular sono e, principalmente, trabalhar a relação que essa pessoa tem consigo mesma. “Enquanto a mente estiver em conflito, o corpo dificilmente entra em equilíbrio”, afirma.


O caminho, segundo a endocrinologista, passa por desenvolver um olhar mais gentil e realista sobre si. “Se você se trata com uma dureza que não teria com alguém que ama, algo precisa ser revisto. O corpo responde ao ambiente interno que você cria”, diz. E é justamente esse ambiente — mental, emocional e biológico — que define a qualidade da saúde.


No fim, a mensagem é clara: não existe transformação sustentável sem alinhamento entre mente e corpo. “Você merece se enxergar com mais clareza e menos julgamento. E isso não é só sobre autoestima — é sobre saúde”, conclui.

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